domingo, 31 de agosto de 2014

A Podência da Educação (André Gravatá)

Educação é feita principalmente de gente Gente é feita principalmente de abundância Freire disse que se a educação não pode tudo alguma coisa fundamental ela pode E a educação pode uma podência Que surgiu bem antes de método ou ciência A educação tem a podência do esticamento do olhar Para que ele se abra enorme Do tamanho do mar A educação tem a podência da expansão Do cultivo de campos de diversidade Para fertilizar os sertões Que hoje têm nome de cidade A educação tem a podência do desafiamento Passa pelo encontro com nossos redemoinhos internos Que giram, sem trégua, num movimento de bagunçação Daquelas entranhas feitas principalmente de emoção A educação tem a podência de instaurar Uma catação de horizontes dentro de cada um Para que as abundâncias sejam descobertas Lapidadas, expostas, caleidoscopadas Tocadas, abertas, compartilhadas A educação tem a podência de conjugar Um verbo sinuoso, em chamas O verbo ousadiar Que é verbo de significância Verbo de propósito sem demora Para que nos ousadiemos no agora E no gerúndio, ousadiando A qualquer hora.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

UBUNTU PARA TODOS NÓS

A jornalista e filósofa Lia Diskin, no Festival Mundial da Paz, em Floripa (2006), nos presenteou com um caso de uma tribo na África chamada Ubuntu.
Ela contou que um antropólogo estava estudando os usos e costumes da tribo e, quando terminou seu trabalho, teve que esperar pelo transporte que o levaria até o aeroporto de volta pra casa. Sobrava muito tempo, mas ele não queria catequizar os membros da tribo; então, propôs uma brincadeira pras crianças, que achou ser inofensiva.

Comprou uma porção de doces e guloseimas na cidade, botou tudo num cesto bem bonito com laço de fita e tudo e colocou debaixo de uma árvore. Aí ele chamou as crianças e combinou que quando ele dissesse "já!", elas deveriam sair correndo até o cesto, e a que chegasse primeiro ganharia todos os doces que estavam lá dentro.

As crianças se posicionaram na linha demarcatória que ele desenhou no chão e esperaram pelo sinal combinado. Quando ele disse "Já!", instantaneamente todas as crianças se deram as mãos e saíram correndo em direção à árvore com o cesto. Chegando lá, começaram a distribuir os doces entre si e a comerem felizes.

O antropólogo foi ao encontro delas e perguntou porque elas tinham ido todas juntas se uma só poderia ficar com tudo que havia no cesto e, assim, ganhar muito mais doces.

Elas simplesmente responderam: "Ubuntu, tio. Como uma de nós poderia ficar feliz se todas as outras estivessem tristes?"

Ele ficou desconcertado! Meses e meses trabalhando nisso, estudando a tribo, e ainda não havia compreendido, de verdade, a essência daquele povo. Ou jamais teria proposto uma competição destas, certo?

Ubuntu significa: "Sou quem sou, porque somos todos nós!"

(porque SOMOS, não pelo que temos...
UBUNTU PARA TODOS NÓS)

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Oque é que a criança precisa saber?

Texto retirado do livro “Vivendo, amando e aprendendo”, de Leo Buscaglia, da Editora Nova Era.

Gostaria de partilhar com vocês algumas das coisas que considero essenciais para fazermos as crianças saberem. A primeira coisa é começar bem cedo a fazer as crianças conhecerem suas maravilhosas minas de ouro da imaginação, que são só delas. Temos de convencê-las de que, em toda a criação, elas são as únicas “elas”. Acho que alguns de nós nos esquecemos disso.

Uma das coisas sobre a nossa sociedade, eu acho, é que nos sentimos mais à vontade quando podemos colocar todo mundo num molde. Vocês não devem ser moldados! Vejam os rostos das crianças. Nunca vi dois que fossem iguais, nem de longe, e gosto disso. Gosto de pensar que elas são aquela combinação que nunca mais tornará a acontecer na história das criaturas humanas. Quando a gente sente isso, sente um pouco de orgulho. E no que diz respeito ao significado implícito nisso, vocês acham que elas estão aqui à toa? Toda essa singularidade é delas à toa? Sabe, gosto de ver o mundo como uma tapeçaria gigantesca, e cada um de nós tendo a responsabilidade de preencher um setorzinho, e, se não assumirmos essa responsabilidade e realizarmos essa responsabilidade, essa tapeçaria será sempre menos do que poderia ter sido e nós estaremos pior por isso. Não quero que você seja eu. Deus sabe que basta um “eu”. Nem gosto do conceito de “Acompanhe o Guru”. Se você quiser perder você, siga-me. Quando você me segue, isso o leva a mim, e você vai se perder! Meu conceito é "siga você", pois, quando você segue você e alcança aquela essência de você, e eu alcanço essa essência de mim, então, um dia, nós nos tornaremos um, e não alienados um do outro.
Então, temos que ensinar às crianças que elas são singulares, em todo o mundo. Temos de mostrar-lhes que elas sempre serão as melhores elas. E isso é difícil, pois custamos a acreditar nisso. Ninguém nos vê, nem nos toca.
Temos que fazer as crianças compreenderem que ela não só tem essa singularidade incrível, como ainda têm uma coisa de que às vezes nos esquecemos. Elas são, também, a potencialidade. São muito mais “não descobertas” do que descobertas. Não importa onde estejam, estão apenas começando e a grande e mágica viagem da vida está desencavando tudo e descobrindo o você maravilhoso.
...
Acho que, se eu pudesse ter um único desejo na vida, seria devolver você a você. Não em termos de egocentrismo, mas em termos do fato de que você sabe que pode tornar essa pessoa – você – a pessoa mais maravilhosa, mais notável, mais franca, mais bela, mais criativa do mundo. Não para guardar, mas para dar, pois você só pode dar aos outros aquilo que possui. Se você é ignorante, ensina a sua ignorância; portanto, tem que trabalhar para sua sabedoria. Se você estiver acorrentado, ensinará o seu preconceito e, portanto, tem que trabalhar pela sua liberdade pessoal. Tudo parte de você. Se eu faço alguma coisa por mim, faço-o por você. Quanto mais próximo eu chego de me amar, mais amor terei para lhe dar. Acho que temos que dizer isso muito cedo às crianças.
Depois, acho que temos que dizer às crianças que também há outros presentes.
...
A última coisa que quero partilhar com as crianças é que a vida não é só dor, sofrimento e desespero, conforme se ouve no noticiário das 19:00 e se lê nos jornais. Essas são as coisas
que são notícia. O que não ouvimos são as coisas maravilhosas, divertidas, grandiosas e fantásticas que também estão acontecendo. De algum modo temos que transmitir isso também às crianças. Para poder fazer isso, você terá que se pôr em contato novamente com a sua própria alegria e loucura. Estamos todos loucos! E, se você não acredita, é mais louco do que a maioria. O tédio provém da rotina. A alegria, o assombro, o êxtase surgem da surpresa. ... Podemos escolher. Temos opções. Você pode escolher como deseja viver a sua vida. Pode escolher a alegria, a liberdade, a criatividade, a surpresa, ou a apatia e o tédio. Epode fazer essa escolha agora mesmo!
Isso é uma coisa de que realmente gosto e resume tudo. Foi escrito por Frederick Molfett, do Bureau of Instructional Supervision, New York Departament of Education (Escrit6rio de Supervisão Instrucional, Secretaria de Educação de Nova York). Ele o intitula de "Como a Criança Aprende".

Assim é que a criança aprende, captando as habilidades pelos dedos das mãos e dos pés, para dentro de si. Absorvendo hábitos e atitudes dos que a rodeiam, empurrando e puxando o seu próprio mundo. Assim a criança aprende, mais por experiência do que por erro, mais por prazer do que pelo sofrimento, mais pela experiência do que pela sugestão e a dissertação, e mais por sugestão do que por direção. E assim a criança aprende pela afeição, pelo amor, pela paciência, pela compreensão, por pertencer, por fazer e por ser. Dia a dia a criança passa a saber um pouco do que você sabe, um pouco mais do que você pensa e entende. Aquilo que você sonha e crê é, na verdade, o que essa criança está-se tornando. Se você percebe confusa ou claramente, se pensa nebulosa ou agudamente, se acredita tola ou sabiamente, se sonha sonhos sem graça ou dourados, se você mente ou diz a verdade, é assim que a criança aprende.

Temos de dizer às crianças que elas têm a escolha de se tornarem entusiastas ou perdedoras. Pois não encontrar o amor é não encontrar a vida. Diz Thorton Wilder: "Há a terra dos vivos e a terra dos mortos, e a ponte é o amor. A única sobrevivência e o único significado."
Contemos isso às crianças!

Leo Buscaglia

Texto retirado do livro “Vivendo, amando e aprendendo”, de Leo Buscaglia, da Editora Nova Era.
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quinta-feira, 21 de outubro de 2010

E Agora José?(Dirceu)

25 de julho
E agora, José? - FREI BETO
Folha de S Paulo

Temo que por muitas cabeças passe a idéia de, em 2006, anular o voto ou votar em branco. Seria um desastre.

E agora, José?

A festa acabou? Já não há mais PT? Não, José, de tudo isso fica uma grande lição: não é a direita que inviabiliza a esquerda. Esta tem sido vítima de sua própria incoerência, inclusive quando se elege por um programa de mudanças e adota uma política econômica de ajuste fiscal que trava o desenvolvimento, restringindo investimentos públicos e privados.
A esquerda deu um tiro no pé na União Soviética, esfacelada sem que a Casa Branca lhe atirasse um único míssil. Faliu por conta da nomenklatura, das mordomias abusivas das autoridades, da arrogância do partido único, da corrupção. Assim foi na Nicarágua, onde líderes sandinistas se locupletaram com imóveis expropriados pela revolução e enriqueceram como por milagre.
Agora, José, é a nossa confiança no PT que se vê abalada. O que há de verdade e de mentira em tudo isso? Por que o partido não abre sua contabilidade na internet? Se houve mesmo "mensalões" e malas de dinheiro, como ficam os pobres militantes e simpatizantes que, em todas as campanhas eleitorais, contribuíram, com sacrifício, do próprio bolso? Findas as investigações, o PT precisará vir a público e, de cabeça erguida, demonstrar que tudo não passou de "denuncismo", de "golpismo", de armação (ia escrever "dos inimigos") dos aliados... ou, de cabeça baixa, em atitude humilde, reconhecer que houve, sim, malversação, improbidade, tráfico de influência e corrupção.
O mais grave, José, é o desencanto que toda essa "tsulama" provoca na opinião pública, sobretudo na dos mais jovens.
Quando admitimos que "todos os partidos são farinha do mesmo saco", fazemos o jogo dos corruptos, pois quem tem nojo de política é governado por quem não tem. Se todos se enojarem, será o fim da democracia e da esperança de que, no futuro, venha a predominar a política regida por fortes parâmetros éticos. Portanto o desafio, hoje, não é só promover reformas estruturais no país. É reformar a própria política, de modo a vedar os buracos pelos quais a corrupção e o nepotismo se infiltram.
Temo que por muitas cabeças passe a idéia de, nas próximas eleições, em 2006, anular o voto ou votar em branco. Seria um desastre. O voto é uma arma pacífica. Deve ser usado com acuidade e sabedoria.
Em todo esse processo é preciso destacar os políticos que primam pela ética, pela coerência de princípios e pela visão de um novo Brasil, sem alarmantes desigualdades sociais. Antonio Callado, em sua última entrevista, a esta Folha, disse que perdera "todas as batalhas".
Também experimentei, José, muitas perdas: a morte do Che, a derrota da guerrilha urbana contra a ditadura militar, a queda do Muro de Berlim e, agora, essa fratura no corpo do partido que ajudei a construir como simpatizante e que se gabava de primar pela ética na política. No entanto quantas vitórias! Sobre a França e os EUA no Vietnã; sobre os EUA e a ditadura de Batista em Cuba; a de Martin Luther King contra o racismo americano; a de Nelson Mandela contra o apartheid na África do Sul.
No Brasil, a extensa rede de movimentos populares, as CEBs, a CUT, o MST, a CPT, a CMP, a CMS; os movimentos de direitos humanos, mulheres, negros, indígenas; as ONGs, as empresas cônscias da responsabilidade social. E, sobretudo, a eleição de Lula à Presidência da República.
Não se pode jogar no lixo da história todo esse patrimônio social e político. Sem confundir pessoas com instituições, maracutaias com projetos estratégicos, é hora de começar de novo, renovar a esperança e, sobretudo, não permitir que tudo fique como dantes.
Aprendamos com Gandhi a fazer hoje, a partir de nossas práticas pessoais e sociais, o mundo novo que sonhamos legar às gerações futuras. Deixemos ressoar no coração as palavras de Mario Quintana: "Se as coisas são inatingíveis... ora!/ Não é motivo para não querê-las.../ Que tristes os caminhos, se não fora/ A mágica presença das estrelas!".
Carlos Alberto Libânio Christo, o Frei Betto, 60, frade dominicano, escritor e assessor de movimentos sociais, é autor de "Treze Contos Diabólicos e Um Angélico" (Planeta), entre outros livros. Foi assessor especial da Presidência da República (2003-2004).

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Educar por Rubem alves

- Educar -

“Educar é mostrar a vida

a quem ainda não a viu.

O educador diz: “Veja!”

- e, ao falar, aponta.

O aluno olha na

direção apontada e

vê o que nunca viu.

Seu mundo

se expande.

Ele fica mais

rico interiormente...”

“E, ficando mais rico interiormente, ele

pode sentir mais alegria

e dar mais alegria -

que é a razão pela

qual vivemos.”

“Já li muitos livros sobre psicologia da educação, sociologia da educação, filosofia da educação – mas, por mais que me esforce, não consigo me lembrar de qualquer referência à educação do olhar ou à importância do olhar na educação, em qualquer deles.”

“A primeira tarefa da

educação é ensinar a ver...

“É através dos olhos que as

crianças tomam contato com

a beleza e o fascínio do mundo...”
“Os olhos têm de ser educados

para que nossa alegria aumente.”

“A educação se divide em duas partes:

educação das habilidades

e educação das sensibilidades...”

“Sem a educação das sensibilidades,

todas as habilidades

são tolas e sem sentido.”

“Sem a educação

das sensibilidades,

todas as habilidades

são tolas e

sem sentido.”

“Os conhecimentos nos dão meios para viver.

A sabedoria nos dá razões para viver.”

“Quero ensinar as crianças.

Elas ainda têm

olhos encantados.

Seus olhos são dotados daquela qualidade que,

para os gregos,

era o início do pensamento:...”

“...a capacidade de

se assombrar

diante do banal

“Para as crianças,

tudo é espantoso:

um ovo, uma minhoca, uma concha de caramujo, o vôo dos urubus,

os pulos dos gafanhotos, uma pipa no céu,

um pião na terra.

Coisas que os

eruditos não vêem.”
“Na escola eu aprendi complicadas classificações botânicas,

taxonomias, nomes latinos – mas esqueci.

Mas nenhum professor jamais chamou a minha atenção para a beleza de uma árvore...

...ou para

o curioso

das simetrias

das folhas.”

“Parece que, naquele tempo, as escolas estavam mais preocupadas em fazer com que os alunos decorassem palavras

que com a realidade

para a qual

elas apontam.”

“As palavras só têm sentido se nos ajudam a ver o mundo melhor.

Aprendemos palavras

para melhorar os olhos.”

“As palavras só têm sentido se nos ajudam a ver o mundo melhor.

Aprendemos palavras

para melhorar os olhos.”

“Aprendemos palavras para melhorar os olhos.”

“As palavras só

têm sentido

se nos ajudam a ver

o mundo melhor.”

“Aprendemos palavras

para melhorar

os olhos.”

O ato de ver

não é coisa natural.

Precisa ser

aprendido.”

“Há muitas pessoas

de visão perfeita

que nada vêem...

O ato de ver não é coisa natural.

Precisa ser aprendido.”

“Há muitas pessoas

de visão perfeita

que nada vêem...

“Quando a gente

abre os olhos,

abrem-se as

janelas do corpo,

e o mundo aparece refletido dentro

da gente.”

“São as crianças que, sem falar, nos ensinam as razões para viver.

Elas não têm

saberes a transmitir.

No entanto,

elas sabem o essencial da vida.”

“Quem não muda sua maneira adulta de ver e sentir

e não se torna como criança

jamais será sábio.”

Rubem Alves

Rubem Alves – Nasceu em 15 de setembro de 1933, em Boa Esperança, Minas Gerais.

Mestre em Teologia, Doutor em Filosofia, psicanalista e professor emérito da Unicamp. Tem três filhos e cinco netas.

Poeta, cronista do cotidiano, contador de histórias, um dos mais admirados e respeitados intelectuais do Brasil.

“As crianças não têm

idéias religiosas, mas têm

experiências místicas.

Experiência mística não é ver seres de um outro mundo.

É ver este mundo iluminado pela beleza.”

Rubem Alve

Todos os dia é dia do professor(a)

O Menino Que Carregava Água Na Peneira
Manoel de Barros

Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.

A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e sair
correndo com ele para mostrar aos irmãos.

A mãe disse que era o mesmo que
catar espinhos na água
O mesmo que criar peixes no bolso.

O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces de uma casa sobre orvalhos.
A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio
do que do cheio.
Falava que os vazios são maiores
e até infinitos.

Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito
porque gostava de carregar água na peneira

Com o tempo descobriu que escrever seria
o mesmo que carregar água na peneira.

No escrever o menino viu
que era capaz de ser
noviça, monge ou mendigo
ao mesmo tempo.

O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.

Foi capaz de interromper o vôo de um pássaro
botando ponto final na frase.

Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.

O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor!
A mãe reparava o menino com ternura.

A mãe falou:
Meu filho você vai ser poeta.
Você vai carregar água na peneira a vida toda.

Você vai encher os
vazios com as suas
peraltagens
e algumas pessoas
vão te amar por seus
despropósitos.

domingo, 10 de outubro de 2010


BLUES FÚNEBRE
W.H.Auden
Parem todos os relógios, desliguem o telefone,
Impeçam o cão de latir com um osso enorme,
Silenciem os pianos e ao som abafado dos tambores
Tragam o caixão, deixem as carpideiras carpir suas dores.

Deixem os aviões aos círculos a gemer no céu
Rabiscando no ar a mensagem Ele Morreu,
Ponham laços crepe nas pombas brancas da nação,
Deixem os sinaleiros usar luvas pretas de algodão.

Ele era o meu Norte, meu Sul, meu Este e Oeste,
Minha semana de trabalho, meu Domingo de festa
Meu meio-dia, meia-noite, minha conversa, minha canção;
Pensei que o amor ia durar para sempre: foi ilusão.

As estrelas já não são precisas: levem-nas uma a uma;
Desmantelem o sol e empacotem a lua;
Despejem o oceano e varram a floresta;
Porque agora já nada de bom me resta