quinta-feira, 21 de outubro de 2010

E Agora José?(Dirceu)

25 de julho
E agora, José? - FREI BETO
Folha de S Paulo

Temo que por muitas cabeças passe a idéia de, em 2006, anular o voto ou votar em branco. Seria um desastre.

E agora, José?

A festa acabou? Já não há mais PT? Não, José, de tudo isso fica uma grande lição: não é a direita que inviabiliza a esquerda. Esta tem sido vítima de sua própria incoerência, inclusive quando se elege por um programa de mudanças e adota uma política econômica de ajuste fiscal que trava o desenvolvimento, restringindo investimentos públicos e privados.
A esquerda deu um tiro no pé na União Soviética, esfacelada sem que a Casa Branca lhe atirasse um único míssil. Faliu por conta da nomenklatura, das mordomias abusivas das autoridades, da arrogância do partido único, da corrupção. Assim foi na Nicarágua, onde líderes sandinistas se locupletaram com imóveis expropriados pela revolução e enriqueceram como por milagre.
Agora, José, é a nossa confiança no PT que se vê abalada. O que há de verdade e de mentira em tudo isso? Por que o partido não abre sua contabilidade na internet? Se houve mesmo "mensalões" e malas de dinheiro, como ficam os pobres militantes e simpatizantes que, em todas as campanhas eleitorais, contribuíram, com sacrifício, do próprio bolso? Findas as investigações, o PT precisará vir a público e, de cabeça erguida, demonstrar que tudo não passou de "denuncismo", de "golpismo", de armação (ia escrever "dos inimigos") dos aliados... ou, de cabeça baixa, em atitude humilde, reconhecer que houve, sim, malversação, improbidade, tráfico de influência e corrupção.
O mais grave, José, é o desencanto que toda essa "tsulama" provoca na opinião pública, sobretudo na dos mais jovens.
Quando admitimos que "todos os partidos são farinha do mesmo saco", fazemos o jogo dos corruptos, pois quem tem nojo de política é governado por quem não tem. Se todos se enojarem, será o fim da democracia e da esperança de que, no futuro, venha a predominar a política regida por fortes parâmetros éticos. Portanto o desafio, hoje, não é só promover reformas estruturais no país. É reformar a própria política, de modo a vedar os buracos pelos quais a corrupção e o nepotismo se infiltram.
Temo que por muitas cabeças passe a idéia de, nas próximas eleições, em 2006, anular o voto ou votar em branco. Seria um desastre. O voto é uma arma pacífica. Deve ser usado com acuidade e sabedoria.
Em todo esse processo é preciso destacar os políticos que primam pela ética, pela coerência de princípios e pela visão de um novo Brasil, sem alarmantes desigualdades sociais. Antonio Callado, em sua última entrevista, a esta Folha, disse que perdera "todas as batalhas".
Também experimentei, José, muitas perdas: a morte do Che, a derrota da guerrilha urbana contra a ditadura militar, a queda do Muro de Berlim e, agora, essa fratura no corpo do partido que ajudei a construir como simpatizante e que se gabava de primar pela ética na política. No entanto quantas vitórias! Sobre a França e os EUA no Vietnã; sobre os EUA e a ditadura de Batista em Cuba; a de Martin Luther King contra o racismo americano; a de Nelson Mandela contra o apartheid na África do Sul.
No Brasil, a extensa rede de movimentos populares, as CEBs, a CUT, o MST, a CPT, a CMP, a CMS; os movimentos de direitos humanos, mulheres, negros, indígenas; as ONGs, as empresas cônscias da responsabilidade social. E, sobretudo, a eleição de Lula à Presidência da República.
Não se pode jogar no lixo da história todo esse patrimônio social e político. Sem confundir pessoas com instituições, maracutaias com projetos estratégicos, é hora de começar de novo, renovar a esperança e, sobretudo, não permitir que tudo fique como dantes.
Aprendamos com Gandhi a fazer hoje, a partir de nossas práticas pessoais e sociais, o mundo novo que sonhamos legar às gerações futuras. Deixemos ressoar no coração as palavras de Mario Quintana: "Se as coisas são inatingíveis... ora!/ Não é motivo para não querê-las.../ Que tristes os caminhos, se não fora/ A mágica presença das estrelas!".
Carlos Alberto Libânio Christo, o Frei Betto, 60, frade dominicano, escritor e assessor de movimentos sociais, é autor de "Treze Contos Diabólicos e Um Angélico" (Planeta), entre outros livros. Foi assessor especial da Presidência da República (2003-2004).

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Educar por Rubem alves

- Educar -

“Educar é mostrar a vida

a quem ainda não a viu.

O educador diz: “Veja!”

- e, ao falar, aponta.

O aluno olha na

direção apontada e

vê o que nunca viu.

Seu mundo

se expande.

Ele fica mais

rico interiormente...”

“E, ficando mais rico interiormente, ele

pode sentir mais alegria

e dar mais alegria -

que é a razão pela

qual vivemos.”

“Já li muitos livros sobre psicologia da educação, sociologia da educação, filosofia da educação – mas, por mais que me esforce, não consigo me lembrar de qualquer referência à educação do olhar ou à importância do olhar na educação, em qualquer deles.”

“A primeira tarefa da

educação é ensinar a ver...

“É através dos olhos que as

crianças tomam contato com

a beleza e o fascínio do mundo...”
“Os olhos têm de ser educados

para que nossa alegria aumente.”

“A educação se divide em duas partes:

educação das habilidades

e educação das sensibilidades...”

“Sem a educação das sensibilidades,

todas as habilidades

são tolas e sem sentido.”

“Sem a educação

das sensibilidades,

todas as habilidades

são tolas e

sem sentido.”

“Os conhecimentos nos dão meios para viver.

A sabedoria nos dá razões para viver.”

“Quero ensinar as crianças.

Elas ainda têm

olhos encantados.

Seus olhos são dotados daquela qualidade que,

para os gregos,

era o início do pensamento:...”

“...a capacidade de

se assombrar

diante do banal

“Para as crianças,

tudo é espantoso:

um ovo, uma minhoca, uma concha de caramujo, o vôo dos urubus,

os pulos dos gafanhotos, uma pipa no céu,

um pião na terra.

Coisas que os

eruditos não vêem.”
“Na escola eu aprendi complicadas classificações botânicas,

taxonomias, nomes latinos – mas esqueci.

Mas nenhum professor jamais chamou a minha atenção para a beleza de uma árvore...

...ou para

o curioso

das simetrias

das folhas.”

“Parece que, naquele tempo, as escolas estavam mais preocupadas em fazer com que os alunos decorassem palavras

que com a realidade

para a qual

elas apontam.”

“As palavras só têm sentido se nos ajudam a ver o mundo melhor.

Aprendemos palavras

para melhorar os olhos.”

“As palavras só têm sentido se nos ajudam a ver o mundo melhor.

Aprendemos palavras

para melhorar os olhos.”

“Aprendemos palavras para melhorar os olhos.”

“As palavras só

têm sentido

se nos ajudam a ver

o mundo melhor.”

“Aprendemos palavras

para melhorar

os olhos.”

O ato de ver

não é coisa natural.

Precisa ser

aprendido.”

“Há muitas pessoas

de visão perfeita

que nada vêem...

O ato de ver não é coisa natural.

Precisa ser aprendido.”

“Há muitas pessoas

de visão perfeita

que nada vêem...

“Quando a gente

abre os olhos,

abrem-se as

janelas do corpo,

e o mundo aparece refletido dentro

da gente.”

“São as crianças que, sem falar, nos ensinam as razões para viver.

Elas não têm

saberes a transmitir.

No entanto,

elas sabem o essencial da vida.”

“Quem não muda sua maneira adulta de ver e sentir

e não se torna como criança

jamais será sábio.”

Rubem Alves

Rubem Alves – Nasceu em 15 de setembro de 1933, em Boa Esperança, Minas Gerais.

Mestre em Teologia, Doutor em Filosofia, psicanalista e professor emérito da Unicamp. Tem três filhos e cinco netas.

Poeta, cronista do cotidiano, contador de histórias, um dos mais admirados e respeitados intelectuais do Brasil.

“As crianças não têm

idéias religiosas, mas têm

experiências místicas.

Experiência mística não é ver seres de um outro mundo.

É ver este mundo iluminado pela beleza.”

Rubem Alve

Todos os dia é dia do professor(a)

O Menino Que Carregava Água Na Peneira
Manoel de Barros

Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.

A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e sair
correndo com ele para mostrar aos irmãos.

A mãe disse que era o mesmo que
catar espinhos na água
O mesmo que criar peixes no bolso.

O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces de uma casa sobre orvalhos.
A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio
do que do cheio.
Falava que os vazios são maiores
e até infinitos.

Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito
porque gostava de carregar água na peneira

Com o tempo descobriu que escrever seria
o mesmo que carregar água na peneira.

No escrever o menino viu
que era capaz de ser
noviça, monge ou mendigo
ao mesmo tempo.

O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.

Foi capaz de interromper o vôo de um pássaro
botando ponto final na frase.

Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.

O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor!
A mãe reparava o menino com ternura.

A mãe falou:
Meu filho você vai ser poeta.
Você vai carregar água na peneira a vida toda.

Você vai encher os
vazios com as suas
peraltagens
e algumas pessoas
vão te amar por seus
despropósitos.

domingo, 10 de outubro de 2010


BLUES FÚNEBRE
W.H.Auden
Parem todos os relógios, desliguem o telefone,
Impeçam o cão de latir com um osso enorme,
Silenciem os pianos e ao som abafado dos tambores
Tragam o caixão, deixem as carpideiras carpir suas dores.

Deixem os aviões aos círculos a gemer no céu
Rabiscando no ar a mensagem Ele Morreu,
Ponham laços crepe nas pombas brancas da nação,
Deixem os sinaleiros usar luvas pretas de algodão.

Ele era o meu Norte, meu Sul, meu Este e Oeste,
Minha semana de trabalho, meu Domingo de festa
Meu meio-dia, meia-noite, minha conversa, minha canção;
Pensei que o amor ia durar para sempre: foi ilusão.

As estrelas já não são precisas: levem-nas uma a uma;
Desmantelem o sol e empacotem a lua;
Despejem o oceano e varram a floresta;
Porque agora já nada de bom me resta

ISMÁLIA

Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...

E no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava perto do mar...

E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...


Alphonsus de Guimarães

sábado, 9 de outubro de 2010

Eu levo o seu coração comigo

e. e. cummings


eu levo o seu coração comigo (eu o levo no
meu coração) eu nunca estou sem ele (a qualquer lugar
que eu vá, meu bem, e o que que quer que seja feito
por mim somente é o que você faria, minha querida)

tenho medo

que a minha sina (pois você é a minha sina, minha doçura) eu não quero
nenhum mundo (pois bonita você é meu mundo, minha verdade)
e é você que é o que quer que seja o que a lua signifique
e você é qualquer coisa que um sol vai sempre cantar

aqui está o mais profundo segredo que ninguém sabe
(aqui é a raiz da raiz e o botão do botão
e o céu do céu de uma árvore chamada vida, que cresce
mais alto do que a alma possa esperar ou a mente possa esconder)
e isso é a maravilha que está mantendo as estrelas distantes

eu levo o seu coração (eu o levo no meu coração)

Do Veríssimo para refletir em dias de eleição



Eu tomo um remédio para controlar a pressão.
Cada dia que vou comprar o dito cujo, o preço aumenta.
Controlar a pressão é mole. Quero ver é controlar o preção.
Tô sofrendo de preção alto,
O médico mandou cortar o sal.
Comecei cortando o médico, já que a consulta era salgada demais.
Para piorar, acho que tô ficando meio esquizofrênico. Sério!
Não sei mais o que é real.
Principalmente, quando abro a carteira ou pego extrato no banco.
Não tem mais um Real.
Sem falar na minha esclerose precoce. Comecei a esquecer as coisas:
Sabe aquele carro? Esquece!
Aquela viagem? Esquece!
Tudo o que o barbudo presidente prometeu? Esquece!
Podem dizer que sou hipocondríaco, mas acho que tô igual ao meu time:
- nas últimas.
Bem, e o que dizer do carioca? Já nem liga mais pra bala perdida...
Entra por um ouvido e sai pelo outro.

Faz diferença...
"A diferença entre o Brasil e a República Checa é que
a República Checa tem o governo em Praga
e o Brasil tem essa praga no governo"

Luiz Fernando Verissimo

Não tem nada pior do que ser hipocondríaco num país que não tem remédio .

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Poesia e Sensibilidade.

Eu levo o seu coração comigo


Eu levo o seu coração comigo (eu o levo no meu coração)
Eu nunca estou sem ele (a qualquer lugar que eu vá, meu bem, e o que quer que seja feito por mim somente é o que você faria, minha querida)

Tenho medo

Que a minha sina (pois você é a minha sina, minha doçura) eu não quero nenhum mundo (pois bonita você é meu mundo, minha verdade)


E é você que é o que quer que seja o que a lua signifique e você é qualquer coisa que um sol vai sempre cantar


Aqui está o mais profundo segredo que ninguém sabe (aqui é a raiz da raiz e o botão do botão e o céu do céu de uma árvore chamada vida, que cresce mais alto do que a alma possa esperar ou a mente possa esconder) e isso é a maravilha que está mantendo as estrelas distantesEu levo o seu coração (eu o levo no meu coração)


Autor: e. e. cummings (poeta norte-americano, 1894 -1962.)

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Com agradecimento e orgulho.
VIOLÊNCIA

Para Rosângela Nahon

Nas margens encobertas dos meus rios
Jazem ossos de meus filhos chacinados
Como ponteiros vivos nas ampulhetas das histórias.
Insiste-se a invenção da violência no campo
Na busca incessante da minha posse
Eu, terra, verdadeira dona dos homens.

Heliana Barriga